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O rastro da folia: por que o glitter convencional ameaça o meio ambiente

Formado por partículas de microplástico, o glitter pode levar até 400 anos para se decompor

O brilho do Carnaval brasileiro esconde um passivo ambiental que sobrevive por gerações: o glitter convencional, composto por microplásticos, leva até 400 anos para se decompor e já é considerado um poluente persistente no meio ambiente. O sinal de alerta, que antes era restrito a ambientalistas, chegou às prateleiras e à saúde pública em outubro de 2025, após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) endurecer a fiscalização contra plásticos disfarçados de produtos para confeitaria.

O glitter tradicional não é apenas um acessório difícil de remover. Feito de polímeros plásticos e alumínio, ele se fragmenta em microplásticos que o sistema de tratamento de esgoto não consegue reter. O destino final são os oceanos, onde as partículas são ingeridas por peixes e retornam à mesa das pessoas.

Para Ingrid Botelho, engenheira ambiental e gerente da Regenera Cariri, existe um abismo entre o que o público tolera no prato e o que aplica no corpo durante a folia. “Vivemos uma contradição: quando a Anvisa alertou sobre os riscos do glitter com microplástico na confeitaria, houve uma comoção geral, as pessoas ficaram assustadas. Mas, quando chega o Carnaval, ninguém deixa de usar o glitter convencional”, provoca Ingrid. “É a mesma partícula poluente, mas que parece perder relevância porque o impacto maior é no meio ambiente”, reflete.

O abismo regional
Se nos grandes centros do Sudeste as marcas de bioglitter florescem, no interior do Nordeste, o cenário é de deserto comercial. “No Ceará, de fato, só conheço a minha marca que produz. No Sul e Sudeste já vi muitas marcas, mas no Nordeste, a troca de produtos convencionais não é incentivada”, pontua Amanda Moura, biotecnologista e proprietária da Canto da Jandaia, marca focada em cosméticos naturais e de baixo impacto ambiental.

Para Amanda, falta uma discussão mais ampla, que saia da bolha ambientalista. “O microplástico é invisível, mas o estrago é grande, com presença detectada até no leite materno. O preço conta na escolha, mas o fator principal é a falta de discussão em todos os campos, das redes sociais às escolas”, afirma.

Performance x Realidade do mercado
Empresárias do setor tentam desmistificar a ideia de que o “brilho ecológico” é inferior. Fabiana Gonzalez, dona da loja Make A, localizada em São Paulo, explica que o desafio é a informação. “O bioglitter de celulose vegetal ou mica natural é visualmente idêntico ao convencional. O consumidor migra quando entende que o plástico é, na verdade, um material cortante e poluente”, diz.

Entretanto, enquanto o bioglitter for um item de nicho, vendido principalmente em e-commerces especializados com sede no Sudeste do país, o glitter de plástico continuará reinando nas gôndolas dos supermercados e farmácias devido ao preço mais acessível e à conveniência.

Para romper o ciclo do plástico no meio ambiente, um dos caminhos para a solução é priorizar adquirir produtos biodegradáveis, como os feitos à base de celulose de eucalipto, a mica natural ou sintética e algas. Esses materiais retornam à natureza sem gerar resíduos.