publicidade

Da Lama à Dignidade: O caminho do Saneamento no Cariri

Rua Contorno Norte – Bairro Seminário – Crato/CE | Foto: Eugênio Silva

No Brasil, milhões de pessoas ainda convivem com ruas onde o esgoto corre a céu aberto, compromete a saúde e molda silenciosamente o futuro de comunidades inteiras. No Cariri cearense — especialmente nos municípios do Crato e de Juazeiro do Norte — esse cenário não é apenas estatístico: faz parte do cotidiano de famílias que lutam diariamente por dignidade.

A realidade é dura. Em Juazeiro do Norte, mais de 70% da população ainda não conta com coleta adequada de esgoto, segundo dados consolidados pelo Instituto Água e Saneamento (IAS). O número reforça a urgência de investimentos capazes de mudar a infraestrutura e, sobretudo, a vida das pessoas que ali vivem.

Panorama Nacional e Regional

Os números deixam pouco espaço para interpretações otimistas. Em Juazeiro do Norte, apenas 27,4% dos moradores tinham acesso ao esgotamento sanitário, conforme o SINISA (Sistema Nacional de Informações de Saneamento).

Esse índice expõe as fragilidades de um dos principais polos urbanos do interior cearense, onde a ausência de rede de esgoto afeta diretamente indicadores de saúde, meio ambiente, educação e qualidade de vida.

No Brasil, o Censo Demográfico 2022 do IBGE aponta que apenas 62,5% dos domicílios estão ligados à rede coletora. Isso significa que cerca de um em cada quatro brasileiros permanece sem acesso a esse serviço básico. No Ceará, a realidade em muitas cidades do interior reflete desigualdades históricas: bairros inteiros convivem com valas de esgoto, fossas improvisadas e infiltrações que se tornam parte da paisagem — e das vulnerabilidades.

Quando o esgoto invade a casa

Para inúmeros moradores, o esgoto a céu aberto não é apenas um transtorno: é uma ameaça direta à saúde e à dignidade. É o caso de Maria Fátima, 61 anos, moradora do bairro Seminário, no Crato. Em sua casa, a cada chuva, a água contaminada invade o quintal e alcança a calçada. O cheiro, segundo ela, “fica para sempre”.

Casa de Dona Fátima, no bairro seminário em Crato | Foto: Eugênio Silva

A aposentada descreve a rotina difícil:

Aqui vem muita sujeira de cima… fezes, tudo sujo. Sobe nas calçadas, a gente tem que lavar, limpar. O mau cheiro é imenso. Às vezes nem aguenta ficar lá fora. Quando chove, piora demais. Esse esgoto aberto é terrível, traz doenças, atrapalha tudo. As crianças, os idosos… ninguém aguenta o cheiro. Vem de tudo: esgoto, fossas. ”As crianças, os idosos… todo mundo que passa um pouquinho na calçada sente o cheiro forte. Como é que vai ficar na calçada desse jeito? É um mau cheiro porque vem de tudo: esgoto, fossas… de tudo.”

A fala da aposentada sintetiza um problema que atravessa gerações, bairros e fronteiras municipais.

A conta da doença: pediatras e sanitaristas soam o alerta

O impacto da falta de saneamento aparece de forma clara nos hospitais.
Entre 2021 e 2023, segundo levantamento da ABCON SINDCON, o Ceará registrou 16.876 internações anuais relacionadas à ausência de coleta e tratamento de esgoto.

Além da preocupação sanitária, o dado pressiona o orçamento público: foram R$ 34,7 milhões por ano em gastos hospitalares. As doenças de veiculação hídrica também foram responsáveis por 3.337 mortes anuais, cerca de 13,3% de todos os óbitos em internações no estado.

Impacto nas crianças

Especialistas ouvidos pela a reportagem da Amplificadora Cariri, destacam que a ampliação de investimentos em saneamento básico não é apenas uma questão de infraestrutura, mas uma política essencial de saúde pública, onde cada avanço na rede de coleta e tratamento representa uma oportunidade de poupar vidas e reduzir gastos do SUS.

A pediatra Liliany Pereira, explica a gravidade da exposição infantil:

“As crianças expostas ao esgoto podem ter diarreias, infecções por vírus, bactérias e vermes — os parasitas intestinais. A hepatite A também é transmitida por água contaminada. Além disso, dengue, chikungunya, zika e infecções de pele e respiratórias são muito comuns. A água contaminada facilita a transmissão desses agentes, comprometendo diretamente a saúde infantil.”

Ela reforça:

“As enfermidades mais frequentes incluem diarreias, hepatite A, arboviroses e infecções de pele e vias respiratórias. A poluição hídrica aumenta o risco e a vulnerabilidade das crianças.”

Riscos também entre adultos

O médico sanitarista Dr. Álvaro Madeira Neto chama atenção para o impacto na população adulta:

“Viver com esgoto a céu aberto traz consequências sérias para qualquer pessoa. Não são só as crianças que adoecem. Adultos também desenvolvem doenças frequentes, como infecções de pele, leptospirose, hepatite A e verminoses. O ambiente com esgoto favorece a proliferação de vetores. É fundamental que o poder público entenda a importância da universalização do saneamento.”

Questionado se água contaminada causa apenas doenças gastrointestinais, ele é categórico:

“De forma alguma. Além das diarreias infecciosas, a água sem tratamento pode transmitir vírus, bactérias, protozoários e parasitas diversos. Hepatite A, leptospirose, esquistossomose, doenças de pele e enfermidades transmitidas por vetores também estão relacionadas à falta de saneamento básico.”

O trabalho da Ambiental Ceará: Um avanço que começa a aparecer

Nos últimos anos, o Cariri tem vivenciado um movimento de transformação. A Ambiental Ceará, em parceria com o Governo do Estado e a Cagece, intensificou obras e metas de universalização. Em 2025, um investimento de R$ 111 milhões foi anunciado para ampliar redes e instalar novas estações elevatórias em Juazeiro do Norte, beneficiando bairros como Triângulo, Antônio Vieira, Santo Antônio e São José.

Planos e metas para a região

Até o fim de 2025:

  • Juazeiro do Norte: mais de 47% de cobertura
  • Barbalha: 56%
  • Missão Velha: quase 30%
  • Santana do Cariri: receberá sua primeira estação de esgoto em 140 anos

No Crato, a transformação é histórica. Com a chegada da Ambiental Crato — responsável pelo esgotamento sanitário —, a cidade deve sair de menos de 3% de tratamento para 50% até 2025, o equivalente a mais de 320 milhões de litros tratados por mês.

Serão:

  • 250 km de redes coletoras;
  • 22 estações elevatórias;
  • seis novas Estações de Tratamento de Esgoto;
  • investimento total de R$ 250 milhões ao longo do contrato.

Para alcançar esse avanço, a concessionária prevê a implantação de 250 quilômetros de redes coletoras, a construção de 22 estações elevatórias e a modernização das Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Ao longo dos 35 anos de contrato, serão investidos R$ 250 milhões apenas no Crato, com a construção de seis novas ETEs, instalação de 1.320 metros de emissários, substituição de 36 quilômetros de redes antigas e atualização contínua do parque de hidrômetros.

Embora a operação do esgotamento sanitário seja transferida à Ambiental Crato, a SAAEC permanece como responsável pela captação, tratamento e distribuição da água no município. A concessionária assume a coleta de esgoto e o atendimento direto à população, realizando serviços como instalação e substituição de hidrômetros, cadastro na tarifa social, negociação de débitos, leitura e fiscalização.

A Ambiental integra a Aegea Saneamento, líder do setor privado no país. Criada em 2010, a empresa atende mais de 38 milhões de pessoas em 860 municípios, distribuídos por 15 estados. No Ceará, o plano é ainda mais ambicioso: a empresa atua para atender mais de 4,3 milhões de pessoas em 24 municípios, incluindo cidades do Cariri, Para isso, o investimento previsto no estado chega a R$ 6,2 bilhões, contemplando a construção de 27 Estações de Tratamento de Esgoto, 249 Estações Elevatórias e mais de 4.000 quilômetros de novas redes de saneamento.

Obras do serviço de Saneamento em Juazeiro Norte | Foto: ASCOM Ambiental Ceará

A Aegea reforça que o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário é um dos pilares para o desenvolvimento sustentável. O objetivo, segundo a companhia, é garantir que a água percorra um caminho seguro até residências, comércios e indústrias, enquanto o esgoto deixe de poluir rios e mananciais — realidade que deve se consolidar também no Cariri com os novos investimentos.

A Visão Técnica

O papel da concessionária é assegurar que todo o esgoto coletado passe pelo devido tratamento antes de retornar ao meio ambiente, reduzindo impactos negativos e preservando os recursos hídricos da região. O coordenador de operações, André Ramos, explica:

A Ambiental Ceará tem a meta de, até 2033, garantir que 90% da população tenha acesso à coleta e ao tratamento de esgoto. Para isso, estamos realizando uma série de investimentos e obras estruturantes nos municípios, com o objetivo de coletar, transportar e tratar todo o esgoto gerado.”

Ele reforça a importância do serviço:

“Então, esse é um ponto principal para que a gente consiga melhorar vários indicadores, como por exemplo, os indicadores de saúde. A gente sabe que a ausência de esgotamento sanitário traz inúmeras doenças para a população. Então, a gente sabe que esse acometimento da população por essas doenças também trazem prejuízos até na educação dos filhos”.

Onde a rede já chegou, a vida mudou

Em bairros onde a rede já chegou, a vida começa a mudar. Moradores relatam que abrir a janela sem sentir o mau cheiro é algo simples, mas transformador. Crianças ficam menos doentes, as infiltrações diminuem, e a sensação de dignidade retorna à rua. A universalização do esgotamento, segundo a Ambiental Ceará, não é apenas uma obra de infraestrutura: é uma política de saúde pública, valorização imobiliária e sustentabilidade social.

O design de interiores Alex Martins, morador da Betolândia, celebra:

“Era uma preocupação muito grande a gente que mora dentro da cidade, nesses bairros mais afastados, no caso Betolândia, se a gente não tivesse o saneamento básico seria mais difícil hoje a gente tem, disse ele.

Ele reforça ainda: “Era uma preocupação muito grande viver sem saneamento. Hoje temos. Isso é questão de saúde pública. A gente não tem mais muricoca, rato, barata… Foi um ganho enorme.”

Perspectivas socioeconômicas

Um estudo do Instituto Trata Brasil, em parceria com a Ex Ante Consultoria, aponta que a universalização do saneamento nas 25 cidades cearenses atendidas pela Ambiental Ceará e pela Ambiental Crato pode gerar R$ 15 bilhões em ganhos socioeconômicos até 2040. O cálculo considera impactos indiretos, como a redução de gastos com saúde, a melhoria no desempenho escolar e a valorização imobiliária.

Apesar do avanço das obras e da expansão da cobertura, os desafios ainda são expressivos. A Parceria Público-Privada (PPP) firmada entre a Cagece e a Ambiental Ceará prevê metas ambiciosas: atingir 90% de cobertura de esgotamento sanitário até 2033 e 95% até 2040.

No cariri, porém, há localidades onde a rede ainda não foi instalada e outras em que a infraestrutura existe, mas os imóveis permanecem sem ligação — situação em que a tubulação passa pela rua, mas o esgoto continua sendo despejado dentro do próprio terreno. Ainda de acordo com o estudo, essa universalização do saneamento nos municípios inseridos na PPP, pode trazer retornos socioeconômicos expressivos. Entre os principais ganhos previstos estão:

• melhora do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH);
• redução da evasão escolar com a queda das doenças de veiculação hídrica;
• valorização imobiliária em áreas historicamente negligenciadas.

Inauguração de uma das ETEs no município de Crato | Foto: ASCOM Ambiental Crato

A reconstrução silenciosa que flui por debaixo da terra

No Cariri, uma transformação silenciosa, mas profunda, começa a redesenhar o cotidiano de milhares de famílias. Aquilo que por décadas simbolizou abandono — a lama, o odor, o esgoto correndo a céu aberto — começa a dar lugar a um sentimento coletivo de esperança. Cada estação elevatória inaugurada e cada trecho de rede implantado deixam claro que não se trata apenas de obras: trata-se de uma conquista civilizatória.

A jornada entre a precariedade e a dignidade, porém, não se cumpre da noite para o dia. Ela é construída no esforço conjunto de gestores públicos, empresas concessionárias, equipes técnicas que monitoram cada metro de tubulação e, sobretudo, das pessoas que conviveram por tanto tempo com a ausência do mínimo. São vidas reais — como Dona Fátima, Alex, as crianças que brincam nas calçadas e os moradores que aprenderam a dormir com o cheiro forte — que sustentam a urgência de cada investimento feito no subsolo das cidades.

Hoje, onde antes corria esgoto, começa a correr a possibilidade de desenvolvimento. E isso não se resume a números, contratos ou percentuais: aparece na saúde que melhora, na rua que deixa de ser vala, na autoestima que retorna, na convivência que renasce. É, acima de tudo, a devolução de um direito básico: viver em um ambiente seguro, limpo e humano.

Mas o avanço do saneamento no Cariri também traz um alerta. Ainda há cidades onde a rede não chegou, bairros onde as ligações não foram feitas e comunidades que seguem vulneráveis à lama, às doenças e ao esquecimento. O futuro da região depende da continuidade dos investimentos, da fiscalização permanente e do compromisso coletivo com o cuidado ambiental.

O esgoto corre no subterrâneo, mas seus efeitos definem tudo o que existe acima. É nessa rede invisível que se decide o amanhã — conectar, tratar, preservar. Porque nenhuma casa merece viver às margens do descaso; todas merecem um futuro mais justo.

O Cariri mostra que dignidade também se constrói: metro a metro, cano a cano, vida a vida.

Por Eugênio Silva — Amplificadora Cariri
Publicado em: 28 de novembro de 2025